Alojamento universitário terá 30 mil camas disponíveis até 2030
Um assunto recorrente em Portugal, principalmente entre a comunidade estudantil, é o alojamento universitário. O aumento da mobilidade de estudantes e a banalização da prossecução dos estudos fazem do mercado do alojamento universitário um mercado rentável, crescente e, nos últimos anos, gerador de lucros avultados. Dado ser o início de um novo semestre, altura em que os estudantes procuram (re)negociar os seus contratos de habitação, consideramos conveniente elucidar os leitores sobre como procurar alojamento para estudantes e qual o panorama nacional relativo a este mercado. Na essência, dir-se-ia que as opções se resumem a quatro. Um estudante pode ter como opção a habitação numa residência universitária, estando, no entanto, esta opção destinada somente a estudantes de mobilidade. Ainda assim, mesmo os estudantes de mobilidade não têm garantia de alojamento nestas residências e, para obter a possibilidade de alojamento, têm de preencher um formulário de candidatura com pedido de alojamento com a devida antecedência. Outra opção, esta menos comum, é a do alojamento em “casa de família” que “per si” exige que haja familiares na área geográfica da instituição que o estudante frequentará. A dita terceira opção, mais comum e mais abordada ao longo do artigo, é a do alojamento em casas ou apartamentos alugados ou comprados. Mais popularizada, esta opção garante ao estudante não só uma maior flexibilidade ao nível dos horários de entrada e saída de casa, bem como a possibilidade de divisão de renda com outros estudantes. É uma prática cada vez mais comum e amplamente publicitada nos mais diversos meios, desde faculdades a jornais, outros meis de comunicação e redes sociais. Há ainda, como modo de alojamento temporário, as pousadas da juventude das diferentes cidades universitárias. Esta opção apresenta uma procura moderada, não deixando de ser uma opção para quem ainda procura uma habitação a curto prazo. A opção do aluguer ou compra No que toca à opção do aluguer (ou compra, nalguns casos) de casas ou apartamentos, há uns quantos aspetos a considerar ao abordar o tema. Um deles, imperativo para um melhor entendimento do assunto, é a história da evolução da procura deste tipo de alojamentos. Tem-se verificado um crescimento significativo desde 2015. No ano letivo 2018/2019, o número de estudantes inscritos no ensino superior foi de 385 247 alunos. O crescimento não é exponencial, porém, o número de estudantes sem habitação na cidade em causa é muito maior do que há cinco anos, daí o crescimento na procura e, consequentemente, na oferta de casas e apartamentos, especialmente no Porto, em Lisboa e em Coimbra. No entanto, um aspeto curioso associado a esta evolução prende-se com o mercado de residências modernas, que continua num valor residual, pois a grande parte da oferta de alojamento para estudantes é operada através de apartamentos privados, muitas vezes em regime informal e com baixa qualidade, ou equipamentos públicos, bastante obsoletos e tendencialmente desconfortáveis. Evolução do número de camas e dos preços Como já foi referido, a evolução da procura de alojamento por parte de estudantes não foi sempre constante, tendo sofrido mudanças ao longo do tempo. Do mesmo modo, e quase intuitivo, a oferta também não foi sempre igual em todos os anos. É neste ponto que nos vamos focar agora nesta parte do artigo. Observaremos então a evolução do número de camas e dos preços. Portugal deparou-se nos últimos anos com uma grande necessidade de reabilitação ou criação de residências universitárias, problema que começou agora a ser resolvido. Deste modo, o número de camas em Portugal tem vindo a aumentar nos últimos anos, após uma diminuição desde 2009 até 2015, passando de 15013 camas para 14547. Assim, após 2015 este número começou a aumentar, tendo crescido cerca de 9,7% de 2015 a 2019, atingindo o valor de 15965. A evolução dos números de camas comprova o anteriormente referido. Falando agora deste indicador nos três principais concelhos de Portugal, podemos observar que Lisboa e Porto seguem a mesma evolução, aumentando do ano anterior para 2019, respetivamente, de 1727 para 1913 e de 1408 para 1669. Pelo contrário, Coimbra manteve-se nas 1831 camas. Em relação aos preços médios e a sua evolução, vamos basear-nos nas plataformas mais utilizadas para a procura de alojamento, que são a olx e, a mais importante, uniplaces. Começando por analisar o preço médio atual na plataforma olx, podemos verificar que este é muito diferente nos diferentes distritos, sendo que desceu ligeiramente em Faro, situando-se nos 291 euros, e em Portalegre, nos 179 euros, entre 2018 e 2019. A subida mais acentuada foi em Bragança, passando dos 126 para os 176 euros, correspondendo a um aumento de 28%, tendo a Guarda registado também um aumento acentuado, passando para os 187 euros. Lisboa é o único distrito com preços médios acima dos 300 euros (345 euros). No Porto, o preço médio por quarto nesta plataforma é de 280 euros. Na Uniplaces, os valores de arrendamento aumentaram, quando comparados com 2018, 8% em Lisboa e 6% na Cidade Invicta, uma média de 399,56 e 299,16 respetivamente. Esta plataforma registou uma taxa de arrendamento bastante alta a estudantes estrangeiros, 13,0%, estando já cerca de 50 mil nas universidades e politécnicos. Na Uniplaces, os preços médios têm vindo a aumentar ao longo do tempo, sendo que de 2017 para 2019 aumentou cerca de 8,6% em Lisboa e 11,6% no Porto. Estes preços são acompanhados de um aumento da procura, o que, juntamente com a falta de oferta nos últimos anos, permite explicar este aumento. Aumento de investidores no segmento universitário O desajuste entre a oferta e a procura é um dos grandes fatores que têm levado a que, nos últimos anos, tenha existido um plano de investimento para os próximos anos, com começo já em 2019, em residências de estudantes, de modo a dar a volta a este panorama de falta de alojamento. Deste modo, há cada vez mais investidores interessados no segmento universitário em Portugal. Temos o exemplo do Fundo Brookfield, que juntamente com a empresa espanhola Temprano vão criar 19 residências em Portugal e Espanha. São residências como a Milestone, a Collegiate e a Student Ville, que serão criadas através de investimentos de empresas como a Xior (belga), o grupo francês Odalys e a Round Hill Capital. Todas estas empresas estão a investir milhões em Portugal, o que levará a um aumento exponencial do número de camas e, consequentemente, a uma melhor resposta ao número de estudantes que procuram alojamento universitário. Assim, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior anunciou que, nos próximos quatro anos, serão criadas 12 mil camas em todo o país, ficando disponíveis 30 mil camas até 2030. Como referido anteriormente, a procura por este tipo de habitação é muito elevada. Cerca de 42% dos estudantes do ensino superior público estudam fora da sua zona de residência. Estes procuram um espaço que forneça as condições básicas de uma habitação, nomeadamente quarto com acesso a casa de banho e cozinha, no mínimo. Seria ideal se a habitação também fosse dotada de uma localização central relativamente à universidade, assim como se tivesse algum mobiliário que permitisse ao estudante estudar em casa. No entanto, a procura por estas caracteristicas rapidamente se subroga ao preço das habitações. Oferta de camas para estudantes universitários tende a aumentar Como em qualquer situação de excesso de procura, em condições normais, considerando um mercado relativamente contestável, a oferta de camas para estudantes univeritários tende a aumentar. O crescimento ininterrupto do mercado desde 2013 justifica os investimentos privados que têm sido realizados para responder à procura de camas. Este fenómeno é bem visível. Como exemplo podemos olhar para a zona da Universidade do Porto, que tem registado um enorme investimento imobiliário, com a construção de novos edifícios nas imediações das faculdades assim como a abertura de empresas de alojamento estudantil. Para além disso, existem cada vez mais produtos financeiros, como fundos de investimento, que têm por objeto a habitação para estudantes. A médio prazo, o aumento da oferta causada por todos estes investimentos e pela intervenção do Estado reduzirá o preço. Até lá, o mercado encontra-se com preços demasiado elevados para aquilo que os estudantes portugueses deveriam pagar. Mas qual tem sido, é, e se espera que seja o papel do Estado perante este fenómeno? Incentivo fiscal e “Porta 65 Jovem” Outra forma de minimizar o problema tem sido por via das deduções de IRS por agregado familiar. Os estudantes que se encontram deslocados a, pelo menos, 50 quilómetros de casa podem deduzir o valor das rendas pagas no IRS do agregado familiar. As famílias conseguem então deduzir 30% do valor dessas rendas. No entanto, esse valor encontra-se limitado a 300 J e também ao limite máximo das despesas de educação. Deste modo, trata-se de uma forma de atacar o problema pouco sentida junto dos estudantes. Por último, uma solução que poderá ser mais viável até à estabilização do mercado é o investimento em programas como o “Porta 65 Jovem”, que apoia financeiramente os jovens que tentam aceder ao mercado de arrendamento através de comparticipações. Este programa tem alguns limites, como, por exemplo, a renda não pode ultrapassar a renda máxima admitida na zona onde se localiza a habitação e para a tipologia da casa em causa. Quarto no Seminário de Vilar custa 525 euros por mês Uma das formas pelas quais o Estado tem tentado intervir perante esta situação é pela disponibilização direta de mais camas junto às áreas universitárias. Como referido acima, a tutela afirma que haverá um aumento do número de camas de iniciativa pública disponíveis. No entanto, esta solução apresenta alguns problemas, nomeadamente o preço e a quantidade da oferta pública. Um exemplo disso é o do Seminário de Vilar, no Porto, que é utilizado para alojamento estudantil. No entanto, segundo a Federação Académica do Porto, as conversações entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e a diocese do Porto não foram frutíferas, e os preços acordados acabaram por ser superiores aos de mercado, não tendo qualquer impacto positivo para os estudantes. Um quarto nesta residência de estudantes, sem acesso a cozinha, mas com limpeza geral e troca de roupas, custa 525 euros por mês, 350 se for partilhado. Valores acima da média dos quartos disponíveis no OLX e na Uniplaces. No que toca à questão da quantidade, estudos feitos sobre este mercado pela Universidade do Minho afirmam que a oferta pública fica extremamente aquém das necessidades do mercado. Sendo que, no Porto, os quartos privados representam cerca de 64% dos quartos alugados pelos estudantes.